Wednesday, December 9, 2009

Vitor Canella, O Acordeonista


O pessoal da atual geração não deve ter a mínima ideia de quem é essa figura.
Somos um país sem memória.
Tive o privilégio de conviver muitos anos com esse músico excepcional, criativo, sensível. Sabia interagir com o público e organizar a melhor sequência de músicas a serem tocadas durante um baile: criar o clima perfeito para dançar era com ele mesmo!

O acordeon, que era quase uma extensão do seu corpo, obedecia ao comando dos dedos que percorriam o instrumento como se tivessem nascido juntos - e que som maravilhoso ele fazia jorrar pelo ambiente, alegrando, embalando sonhos, comovendo e trazendo lembranças do passado guardadas nos corações de tantos que o admiravam.

Tinha um grande defeito; fumar demais, três ou quatro carteiras de cigarro consumidas diariamente. Foi esse vício que o levou precocemente para outra dimensão, onde deve estar dando concertos para os anjos.
Era uma necessidade absurda, incontrolável, que o fez amar menos a vida, já que não conseguia parar de tragar o veneno - aos poucos foi definhando e nos últimos bailes, já tocava poucas músicas, sempre sentado e ofegante, mas também sempre brilhante.
Até que não pode mais subir aos palcos e um grande e escuro buraco abriu ante nós, com a sua ausência.

Pessoa alegre, divertida, contava piadas, bem informado, conversava sobre todos os assuntos, fazia de tudo para não perder uma discussão.
Bom garfo (conhecedor detalhista da boa comida), às vezes tomava um trago a mais e tornava-se jocoso: se isso acontecia quando estávamos viajando, após terminar o baile, ele ia cantando aos berros para o ônibus e não deixava ninguém dormir, às vezes também usava o acordeon para não permitir que o silêncio tomasse conta do veículo.
Portava uma leva tudo enorme, com todos os documentos possíveis ali guardados (diziam que até a escritura da casa). Num certo baile em Pelotas, onde iríamos tocar após um leilão de cavalos, aguardávamos o final do tal evento e fomos até um bar próximo ao teatro. Ficamos um bom tempo ali, conversando, tomando cerveja, dizendo aquelas besteiras que só músicos reunidos numa mesa de bar conseguem formular (e entender...). O tempo passava e nada de terminar o tal leilão, o bar fechou e tivemos que ir embora. Já no teatro, uma hora ou mais se passara e Canela se dá conta de que esquecera a leva tudo sobre uma cadeira ao lado daquela em que estava sentado... Desespero! Saiu correndo de volta ao bar, que para sorte dele servia também de residência para o dono e com a ajuda de um brigadiano, o sujeito foi acordado, desceu até o estabelecimento e... lá estava ela, a bolsa, intacta na cadeira! Poucas vezes vi uma expressão tão grande de alívio no rosto de alguém...

Em 35 anos de carreira, convivi com muitos músicos talentosos, mas o Canella foi o único que me fez ficar de boca aberta enquanto tocava, conseguindo me transportar para outro mundo, um lugar onde podia-se flutuar, levemente, sem problemas, só sentindo prazer com o som!

Em outro baile, em Alegrete, estávamos tocando quando faltou energia elétrica.
Todos os instrumentos calaram, um burburinho de vozes estabeleceu-se no salão.
"Vamos aguardar, logo volta..." Mas que nada, o problema parecia ter sido grave.
Alguém trouxe um lampião e colocou no palco.
Canella pegou o acordeon e começou a tirar melodias dele.
Uma percussão leve ajudou no ritmo - o pandeiro do Touguinha.
E o salão inteiro fez silêncio, ouvindo embevecido a música feita em estado de pureza, sem um plug, sem voltagem.
Alguns pares arriscaram dançar, mas suavemente, para não perturbar a magia daquele momento.
A penumbra, o acordeon, as pessoas absorvendo a beleza inigualável que se criara...

Foram tantas passagens, algumas engraçadas (quando ele não quis pagar um jantar, porque achara muito caro e decidiu comer alguma coisa após o baile, sendo surpreendido pelo preço do lanche que consumiu - era o mesmo do jantar... no fim de noite, vale tudo!), algumas tristes (vê-lo definhando a cada baile, fraquinho, mal conseguindo segurar o acordeon companheiro de tantas apresentações), mas todas brilhantes na execução da arte na qual ele era um mestre.

Vitor Canella - não esqueçam desse nome, uma das glórias musicais do nosso país (ele era catarinense, mas passou a maior parte da vida atuando no Rio Grande do Sul)!

 Tico-tico no Fubá

Saturday, December 5, 2009

E la nave vá


Minha primeira apresentação com o CMNB foi durante a Noite do Lembra, evento que estava marcando a volta do conjunto aos palcos, depois da saída de Edgar Pozzer.
Na verdade, estava entrando para o grupo para "substituí-lo", todas as músicas do meu repertório inicial faziam parte do repertório que ele cantava ali - Piove, El dia en que me quieras, uma seleção de boleros que dividia com o Luis Otávio, algumas bossa-novas - pouca coisa, já que eu era uma "cantora convidada".

Engraçado que, depois de muitos anos atuando com eles e já tendo um repertório bem mais extenso, ainda era apresentada com o título de "cantora convidada", quando na verdade isso não tinha mais significado.

Os primeiros ensaios foram realizados no prédio da loja de móveis do Calcanhoto, o baterista - foram poucos porque o baile já iria acontecer. Fui vestida de branco da cabeça aos pés e gostei daquele clima anos 60 - o conjunto que, antigamente, rivalizava com Norberto nas festas - Renato e seu Conjunto - também apresentou-se e, incrivelmente, ainda existiam resquícios de competição no ar!

Disseram que faríamos esporádicas apresentações, talvez 3 ou 4 por ano.
Mas não esperávamos o sucesso daquele revival; o público adorou e a informação passou de boca em boca: Norberto Baldauf está tocando de novo!
Logo, começaram a pipocar os contratos com viagens por todo o Estado e quando me dei por conta, estávamos tocando todos os fins de semana! Enfim, estava voltando a uma situação da qual me julgara desligada para sempre: voltei a ser uma cantora de bailes!

Mas os primeiros anos foram compensadores, sob o ponto de vista financeiro e musical; ganhávamos muito bem por uma apresentação de quatro horas (tínhamos um diferencial, pois a maioria dos conjuntos tocava 5 ou 6 horas seguidas), principalmente porque atravessamos o período em que podíamos negociar os contratos pelo valor do dólar (bons tempos em que o real equivalia ao dólar...). Ficávamos nos melhores hotéis, comíamos nos melhores restaurantes e só tocávamos em festas chiquérrimas e com convidados VIPs.
Musicalmente, conseguimos atingir um bom relacionamento no palco e o conjunto tinha uma sonoridade própria, principalmente devido ao acordeon do Canela e ao vibrafone do Heitor - ambos os instrumentos proporcionavam um tipo de som ímpar e lembrando bastante os Anos Dourados, que era o ponto que mais atraía o público.
Os casais maduros queriam relembrar e os mais jovens, conhecer e curtir músicas do passado.
Nosso repertório era basicamente constituído por músicas dos anos 50, 60 e 70, com a execução dos clássicos desses períodos - enfim, era uma reconstituição do que eles tocavam nos anos de sucesso do início de carreira.

Apresentando-se no Le Club, clube noturno que trouxe o melhor da música para Porto Alegre

Baile na Sogipa, clube social e esportivo onde tocávamos muito

Quando esse repertório começou a modificar-se, por exigência de uma parcela do público, creio que começou a degeneração do grupo. Tocar os sucessos do momento exigia um aparato tecnológico que não tínhamos e também um swing que muitos ali também não possuíam. A primeira perda foi a saída do Luis Otávio, que caracterizava tão bem a elegância dos Anos Dourados - com aquele jeito de galã arrumadinho, um gentleman, uma pessoa generosa e boníssima - além disso, era ele quem cuidava das nossas finanças com maestria, pois também era um executivo brilhante.
Sempre irei recordar do momento em que ele preparava-se para cantar New York, New York - levava no bolso uma garrafinha de metal com um pouco de uísque e antes de interpretar essa canção, tomava alguns goles - "para ajudar a voz, limpar a garganta", dizia.
Brincávamos muito com essa mania dele, afirmando que tomava aquele uísque para criar coragem, pois New York, New York é um desafio para qualquer cantor!
Um tempo depois também saiu o Heitor, outro músico competente e pessoa igualmente agradável de se conviver - foram difíceis os primeiros bailes sem o som especial do seu vibrafone muito bem executado.

Trocamos várias vezes de baterista e cantores, entrou um novo tecladista (pois o Heitor também tocava teclados), os demais permaneceram: Norberto, Raul, Juca, Touguinha, Canela e eu.
Até que a doença arrebatou do conjunto a sua figura mais carismática, o artista maior do grupo: Vitor Canela.
Mas ele merece um post exclusivo, tal a importância da sua figura para a música, apesar de que a cultura brasileira não tem memória, muitos desconhecem a atuação e a existência desse músico notável.
Espero contribuir um pouquinho para divulgar o seu nome e obra.

Friday, October 9, 2009

Voltando aos bailes: o início


Em 1985, quando fui convidada pelo Luiz Otávio, crooner do Conjunto Melódico Norberto Baldauf, para atuar como "cantora convidada" em apresentações do grupo (que seriam esporádicas, segundo suas palavras), não pensei que atuaria com eles por 22 longos anos...

A foto é da formação de 1985, quando entrei no grupo, com exceção do baterista: na imagem, está o Toninho, substituindo o Calcanhoto (pai da Adriana) que não encontrou tempo para as inúmeras viagens que o conjunto passou a fazer; da esquerda para a direita estão:

VITOR CANELLA - acordeonista
TONINHO KLEIN - baterista
JUCA FEIJÓ - contrabaixista
NORBERTO BALDAUF - pianista
TOUGUINHA - percussionista
KAZU - cantora
RAUL LIMA - guitarrista
LUIZ OTÁVIO - cantor
HEITOR BARBOZA - vibrafone/teclados

Para mim, essa foi a melhor formação nesses 22 anos, tanto em qualidade musical quanto na qualidade do relacionamento pessoal - havia uma grande amizade entre os componentes do grupo, muitas brincadeiras, gozações, zoeira nas viagens, mas muito respeito e profissionalismo - aspectos que foram se perdendo à medida que os anos avançaram e muitas substituições foram feitas.
Mas isso ocorre com todo o tipo de relação, seja pessoal ou profissional: o desgaste natural e as mudanças, que nem sempre são positivas ou acrescentam, pelo contrário, roubam aos poucos a antiga magia, nunca mais recuperada.

Singing in the happy hour at the mall


Depois de sair do Thiffany's (que alguns meses depois, fechou), fui convidada pelo Garoto para cantar no Riversides, um charmosissímo happy hour dentro de um shoping center - o Praia de Belas. Na verdade, ele fazia parte de um complexo, que incluía mais dois restaurantes, um pequeno e sofisticado e o outro, um "bastantão" chic.

Novamente, o horário me atraiu - das 19:30 até a meia-noite - apesar de que, inúmeras vezes, ultrapassamos esse horário, devido ao enorme sucesso da música, que segurava os etílicos clientes até mais tarde. Ainda bem que o shopping tinha um horário para fechar, caso contrário, sabe-se lá a que horas iríamos embora...

O grupo, no início, era um trio, com o Garoto, eu e o Everton Pires no baixo - essa formação não durou muito e logo o baixista era o Everson Vargas - mais tarde, entrou um batera - Ronie Martinez. Muitos músicos passaram pelo pequeno palco do Riversides, como o "dindo" Wladimir Lattuada e seu maravilhoso saxofone.

O público era formado por muitos advogados, já que que os Fóruns Trabalhista e Civil ficavam em frente ao nosso prédio - durante pouco mais de um ano, a casa estava sempre cheia e animada e éramos convidados para tocar em várias festas particulares.
Mas como nem tudo que é bom dura para sempre (nem o que é ruim, graças aos deuses), o Riversides foi vendido para uma empresa que não entedia nada de entretenimento - a AVIPAL - a música foi cancelada e, logo depois, todo o complexo foi desativado. Essa empresa entende bastante é de torturar galinhas, criando-as em condições desumanas e precárias, amontoadas aos milhares para obter uma poderosa produção de carne e ovos... bem, isso é uma outra história.



Ainda no quesito "noite", cantei algumas vezes na Casa de Cultura Mário Quintana, numa intervenção organizada pelo baixista Jorge Gerhardt e com a agradável companhia, ao piano, do Fernando Corona - grandes parcerias! Foram algumas noites tranquilas no belo espaço do Café Majestic, tocando e cantando um repertório muito especial. Fiz alguns outros trabalhos com o Jorge, que é especialista em montar rapidamente grupos de bons músicos para eventuais apresentações - todas as que participei até agora, foram grandes e produtivos encontros musicais!

A seguir: 22 anos com o Conjunto Melódico Norberto Baldauf

Wednesday, September 2, 2009

Expondo as entranhas


Todo mundo já deve ter assistido ao lamentável video de Vanusa, a cantora que deu ao Hino Nacional Brasileiro uma versão desafinada, caótica e vexaminosa - letra e melodia foram transformados pela sua interpretação desconexa.
Línguas venenosas disseram que ela estava bêbada, drogada.
Vanusa alegou doença - um rol de padecimentos como labirintite e três cirurgias realizadas recentemente devido a uma queda.
Será que ela deveria estar apresentando-se em público com a saúde tão fragilizada?
Os remédios para labirintite, o stress, briga com o filho, visão fraca - desculpas que foram dadas para o acontecido.
Particularmente, fiquei entristecida com o fato; sendo também cantora, conheço a tensa responsabilidade de estarmos num palco, da ansiedade que sentimos - mesmo que sejamos veteranas na profissão, sempre existe um certo receio de que a apresentação não seja um sucesso - a voz pode falhar, podemos esquecer a letra, um escorregão, um tropeço... E no caso, dela foi um total fracasso!
Com 61 anos e com a saúde abalada, não deveria ter corrido esse risco, indo apresentar-se sob medicação pesada e com efeitos colaterais - mas não posso julgar os motivos que a impeliram a cumprir seu compromisso, apesar da estafa.
Já cantei com febre, gripada, com dor de garganta, amamentando, preocupada com filho doente em casa, terminei um show às 5 da manhã e às sete estava na faculdade fazendo prova, enfim, vida de artista não é o mar de rosas que aparenta ser... e ao público não interessam nossos problemas, o que ele quer é um espetáculo perfeito! Se você faz uma apresentação brilhante, é aplaudida; se comete erros, é vaiada - simples como 2 e 2 são 4.
Não acredito que ela buscasse essa publicidade negativa, mesmo estando no ostracismo.
Infelizmente, talvez agora ela fique mais conhecida por ter pago esse mico do que por todo o trabalho que já realizou, desde a época da Jovem Guarda.

Friday, May 15, 2009

De noite, eu rondo a cidade...

Quem atua nos bares noturnos é obrigado a cantar, todas as noites, essa música - sempre aparece alguém pedindo e você, que não pode negar, entoa a melodia e recita as palavras do hino dos notívagos: RONDA!

Houve uma época em que jamais pensaria em trabalhar "na noite", diariamente cantar no mesmo lugar - achava um tédio e meio brega!
Mas o convite que recebi do maestro Garoto, com que já havia gravado muitos jingles, era para trabalhar num lugar muito chique e especial, o recém inaugurado happy hour do Alfred Hotel (localizado na Senhor dos Passos, logo abaixo da esquina com a Otávio Rocha).
Outro atrativo: o horário; começava cedo, às 19:30 e terminava também cedo, às 23 horas - depois do show, íamos ao restaurante do hotel jantar - Garoto (piano), Aloísio (baixo) e eu, a lady crooner, apelido que recebi pela primeira vez numa crítica de jornal do Danilo Ucha e acabou "pegando"...
O Alfred também me vestia, sempre com roupas em vermelho e preto, que eram as cores do bar, com uma decoração sofisticada e com toques internacionais - o serviço, a música (preponderância de jazz), enfim, o padrão estrangeiro de casa noturna.

Durante quase dois anos, o Thifany's tornou-se referência de happy hour, na cidade - quem era "importante" ia lá!
Elói Celente trouxe muita gente interessante e/ou famosa para os charmosos assentos do bar - mulheres bonitas, personalidades, políticos, artistas (quem vinha fazer show na cidade, passava pelo bar para dar uma canja)... e muitas cantoras que invejavam minha posição.



As fotos que tirei, encomendadas pelo Elói, saíam em muitas matérias, que ajudavam mais ainda a criar a atmosfera elegante e cool do Thifany's:








Foi um período bastante efervescente da minha vida, convivendo com um mundo que era novidade para mim: alta-sociedade, gente com muito dinheiro e poder, famosos... apesar disso, não me deslumbrei e depois de um tempo, todo aquele brilho começou a me cansar (assim como as pessoas também descobriam novos lugares para frequentar...).
É verdade que mesmo as melhores coisas e situações acabam por atingir um ponto de saturação e isso sinaliza que é hora de mudar, de saltar fora!



Um pouco antes de sair do Thifany's, fui procurada pelo Luiz Otávio, cantor do Conjunto Melódico Norberto Baldauf, me contratando para ser cantora-convidada em uma apresentação que eles fariam, marcando o reinício de suas atividades musicais.
Já tinha me prometido que "bailes nunca mais!", mas como seriam pouquíssimas apresentações, enfim, uma coisa muito light, acabei cedendo e comecei a ensaiar com eles.

Mal sabia que ficaria 22 anos cantando ao lado deles... mas isso é assunto para outros posts!

Super Banda do Touguinha

Passadas as emoções de cantar numa superprodução musical, voltei às bandas de baile.
Desta vez, entrei para um grupo bem maior, com vários sopros e cantores, quase uma orquestra e montada e dirigida por Fausto Touguinha, conhecido percussionista, pai do Salvador Touguinha (mais conhecido como Tiquinho, guitarrista e contrabaixista muito talentoso).

Éramos 3 cantoras, mas somente eu tinha experiência, minhas colegas possuíam apenas "a vontade de ser cantora" que era sentida por muitas garotas, mas manifestada na realidade por bem poucas.
Após algumas apresentações, ficamos apenas duas (a terceira, teve performances patéticas no palco): Rose e eu (a Rose, após essa experiência, desistiu da carreira musical, casou e tornou-se evangélica - o que será que a fez mudar tanto assim de trajetória?).
O cantor era o Medina, conhecido pela sua atuação nos carnavais portoalegrenses.

Já que falei em Carnaval, nunca tinha trabalhado num e resolvi experimentar.
Foi só esse mesmo, pois além do trabalho cansativo, extenuante, o dinheiro não chegava a compensar tanto desgaste. Começávamos na sexta-feira à noite e só parávamos na noite de terça, sem contar os bailes infantis de sábado e terça à tarde.
Cantava exclusivamente músicas da Gal Costa - seus frevos - pois as cantoras brasileiras não haviam descoberto ainda esse filão (hoje acontece o contrário, as cantoras tomam conta do repertório no carnaval, vide Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Cláudia Leite e outras).
E fazia alguns vocais nos clássicos carnavalescos, mas a maioria dos tons ficavam difíceis de ser alcançados por nós, já que eram escolhidos para voz masculina e para o registro dos sopros.
Então, na verdade o que mais fazíamos era ficar dançando e pulando, pagando um grande mico com aquelas fantasias coloridas e sumárias... por isso mesmo, repito que foi minha primeira e única experiência em palco, nas folias momescas!

Duas imagens das minhas atuações no Carnaval; esta mostra o primeiro BAILE VERMELHO E BRANCO, realizado pelo Internacional S. C., no Gigantinho; atentem para o visual... minha parceira Rose (ano de 1982):



Essa outra foi registrada no Teresópolis Tênis Club, no seu BAILE VERDE E BRANCO; aparecem, além das cantoras, o baixista Luis e a cabeça encaracolada do Medina:



Muita gente atuava na banda, não sei se vou lembrar de todos os nomes: Medina, Rose e eu (cantores), Touguinha (dono e percussionista), Tiquinho (guitarrista), Luis (baixo), Charão, Laci, Sílvio, Geraldo (sopros, me perdoem os que estão faltando relacionar), Barel (batera), tecladistas tivemos vários, um deles era músico da OSPA, o Giovanni - uma das nossas apresentações:



Reparem no meu modelito dourado e cheio de babados - pasmem, mas era up-to-date!



Quando saí dessa banda, fiquei algum tempo em outra - o Elenco, do Saleh - mas trabalhávamos demais (de quinta a domingo), com muitas viagens e tocando em muitos "clubes de coroas" - comecei a me entediar e perder a vontade de cantar - estava fazendo um trabalho que me oferecia pouquíssimo prazer e muito desgaste de energia.
Creio que o trabalho mais legal que fizemos foi participar da primeira Festa do Disco em Canela, promovida pelo Fernando Vieira, onde conheci muitos músicos do Rio e São Paulo durante o fim-de-semana em que lá fiquei.

Resolvi dar um tempo e, logo depois, comecei uma nova fase: A NOITE!

Thursday, May 14, 2009

A Voz do Brasil

Quando Geraldo Flach tornou-se o diretor musical da gravadora Isaec (prédio na Senhor dos Passos, quase ao lado do Instituto de Artes do RS), os jingles passaram por uma transformação e receberam nova roupagem, obviamente com as características deste arranjador e pianista.
A gravadora também produziu muitos discos nessa época e o grupo formado para trabalhar com os jingles, participava igualmente dessas gravações - fiz muitos vocais em discos de música gauchesca, de cantores da noite, de músicos como Fernando Ribeiro e Luiz Eugênio.
Geraldo montou um grupo de qualidade, com instrumentistas e vocalistas que trabalharam juntos por muito tempo, criando coesão e camaradagem, o que levou-o a pensar na criação de um espetáculo - A VOZ DO BRASIL.
Foi um projeto ousado e de extrema qualidade, patrocinado pelo extinto Sulbrasileiro.
O programa do show era um jornal em cores, com fotos dos músicos (clicados por Leonid Strelaiev), depoimentos, as letras do repertório, coisa fina!



Estreamos uma pequena temporada - de 16 a 27 de julho de 1980 - no Teatro Renascença; surgiu a possibilidade de apresentações no interior, mas não se materializou - equipe muito grande, grande investimento...

"Esse espetáculo, A VOZ DO BRASIL, se propõe a documentar musicalmente os fatos que representam diversas situações e acontecimentos, os quais têm, ao longo do tempo, influído diretamente nas condições de vida das pessoas".

O Grupo (músicos) (em ordem alfabética):

Arthur Nestrowski - Violão e Viola
Bebeto Mohr - Bateria e Percussão
Clóvis "Boca" - Baixo
Fernando do Ó - Percussão, Harmônica, Violão e Efeitos
Geraldo Flach - Piano Acústico, Piano Elétrico Rhodes, Arranjos
Geraldo Schuller - Sax, Clarinete e Flauta
Joceli - Acordeon e Sintorquestra
Kazu - Voz
Malu - Voz
Paulo Oliveira - Sax Soprano e Flauta

O Roteiro:

1 - Abertura
O Guarani
O Descobrimento
Aquarela do Brasil
Querelas do Brasil

2 - A Terra
Asa Branca
Testamento
Roda Carreta

3 - O Êxodo Rural
Chegança

4 - O Problema Urbano
O Fumo
Vai Trabalhar, Vagabundo
Esse Sol

5 - A Violência
De Frente pro Crime
Batismo de Fogo
Americano
A Voz do Brasil
Pialo de Sangue

6 - A Família
Lero Lero
Em Cena
Aos Nossos Filhos

7 - A Sociedade
Comportamento Geral
Deus lhe Pague

8 - A Síntese
Desenredo

Todos os instrumentistas que atuaram no espetáculo faziam parte de uma nata de músicos - estrelas da constelação gaúcha. Os arranjos, muitas vezes, priorizavam o instrumental - nada a estranhar, sendo o projeto de um instrumentista e a presença de tantos talentos.
Talvez, por várias estrelas estarem dividindo o mesmo espaço apertado, houve um choque de egos entre Geraldo Flach e Bebeto Mohr, sendo que este último abandonou o projeto impulsivamente, no meio do caminho. Foi substituído pelo baterista Pezão (hoje no Papas da Língua), que obviamente pegou o bonde andando (sem tempo para ensaios), mas conseguiu "salvar a pátria".

Quanto a mim, tive uma experiência árdua - cantar Aos Nossos Filhos como música-solo foi uma tarefa hercúlea, principalmente por já ter sido gravada por Elis com sua interpretação marcante e ímpar...






Durante um ensaio



Cena do espetáculo (usávamos macacão de operário como figurino)

Thursday, April 16, 2009

Esse foi o show de Bacharach que perdi...



Claro, a voz dele já "não é uma Brastemp", os vocalistas seguram a barra, mas ainda existe o carisma, o talento e a criatividade do artista que compôs tão magníficas canções...

Burt Bacharach esteve aqui



Ele esteve aqui, tocando, cantando e brilhando em minha cidade... infelizmente, num show com ingresso salgado demais para meu bolso (250 e 450 reais) e perdi a chance irrecuperável de ver um dos meus ídolos ao vivo!

Com 80 anos, dificilmente voltará a fazer esse tour pelo Brasil...
Mas, quem sabe consiga assisti-lo nos EUA... NÃO CUSTA NADA SONHAR!


Resta continuar escutando suas composições belíssimas: Walk on By, What the World Needs Now Is Love, Alfie, What's New Pussycat?, I Say A Little Prayer For You, The Look of Love, Do You Know the Way to San Jose?, Raindrops Keep Falling on My Head, I'll Never Fall in Love Again, Arthur's Theme (Best That You Can Do), Close To You, Everybody's Out Of Town, Baby It's You, A House Is Not A Home, Casino Royale e tantas outras!

Tuesday, February 24, 2009

Sobre Bach e composição 2


No decorrer do tempo, a distância entre as fontes diminui.
Beethoven não precisou estudar tudo o que Mozart estudou; Mozart nem tudo o que Haendel; Haendel nem tudo o que Palestrina - pois cada um deles havia absorvido verdadeiramente o conhecimento dos seus predecessores.
Mas há uma fonte que, inexaurívelmente, proporciona novas idéias: J. S. Bach.


Robert Schumann - 1810-1856

Sobre Bach e composição


Bach é como um astrônomo que descobre as mais maravilhosas estrelas através dos números.
(...) Eu não vôo tão alto. Há muito tempo decidi que a alma e o coração do homem serão o meu mundo.
É aí que eu procuro as nuanças de todos os sentimentos que transfiro para a música da melhor forma que me é possível.


Frédéric Chopin - 1810-1849

Friday, February 13, 2009

Leila Pinheiro




Leila Pinheiro canta Verde, acompanhada por Cesar Camargo Mariano e Wilson Nunes, em 1986.

Friday, January 9, 2009

Maysa, a gata transgressora



Impossível não comentar a minissérie sobre a vida de Maysa, transmitida desde segunda-feira pela Globo; muitos criticam que os fatos estão sendo "romanceados", mas nada mais coerente para o roteiro de uma série ou minissérie, já que fatos reais são encontrados em documentários - e, às vezes, nem neles encontramos a "pura verdade"...

Maysa é uma das personagens da minha infância: me atraía ela ser uma mulher diferente daquelas que pululavam no meu universo - senhoras recatadas, donas-de-casa, que não fumavam nem bebiam e, obviamente, não tinham vida profissional (apesar de que deviam sonhar com uma carreira glamourosa como a das artistas do rádio e da tv...). E, além de toda essa transgressão, ela cantava... e muito bem! E eu, que amava a música e queria ser cantora, via nela uma estrela inatingível, um ser irreal que morava num conto-de-fadas.

Admirava suas fotos nas páginas da revista O Cruzeiro, onde também haviam imagens de mulheres de biquíni em Copacabana... No Rio de Janeiro e São Paulo, cidades cosmopolitas, ser boêmia e cantora não agredia tanto aos costumes como na pacata Porto Alegre (RS), cidade sulista de tradições machistas e conservadoras; quando observava aquelas fotos, entrava num outro mundo, brasileiro mas tão distante quanto a Lua.

Mais tarde, ficando a par do seu sofrido dilema entre escolher a carreira ou a família (como acontece com tantos artistas) e já sendo cantora, passei também por essa escolha que dilacera nossos sonhos em pedaços dicotômicos: viajar para o eixo-Rio-São Paulo onde tudo acontecia (ainda não é assim?) ou me conformar com uma caminho sem estrelato que me permitiria ficar ao lado dos meus filhos?
Pensei que já tinha essas questões resolvidas e adormecidas dentro de mim, mas ao assitir à história de Maysa, percebi que debaixo das cinzas ainda ardia uma pequena brasa: com teria sido a minha vida se tivesse aceito as propostas, partido para tentar o sucesso e deixado as crianças para serem criadas pelos meus pais?
Não tenho as respostas, só posso conjecturar; mas na telinha, Maysa, já famosa, sofre ao ver seu ex-marido e o filho, abandonados por ela, recomeçando uma vida familiar com outra mulher... Nesse momento, ela gostaria de ficar com todas as cartas do jogo, algo impossível, pois jogando temos que escolher e pensar nas melhores combinações, o que nem sempre nos leva a triunfar ou encontrar a tal da felicidade.

Talvez por isso, ela fosse tão infeliz, por não poder seguir todos os caminhos ao mesmo tempo, por ter que optar e perder... ela não gostava nada de perder, de não ser a primeira e a melhor, a insubstituível...

Talvez por esse motivo agredisse tanto a si com os vícios do cigarro e do álcool, que a faziam fugir de seus problemas mas acabavam levando-a para outros, criados pelos excessos e o desgaste. Teria ela protagonizado tantos escândalos se não estivesse sempre bêbada? Penso que não. Billie Holiday, Janis Joplin, Amy Winehouse (citando apenas algumas), mulheres talentosas e criativas que se machucaram propositalmente, como se estivessem em busca de um castigo constante, de uma punição que talvez lhes desse sossego (ou somente a morte poderia consegui-lo?).

Trabalhar em bares noturnos, cantar, beber, fumar, dormir tarde e acordar com o sol a pino, desgastar o corpo e o espírito, achar que tem muitos amigos mas não poder confiar em ninguém: é como andar pelos subterrâneos do inferno; não que isso tenha uma conotação com o Mal, mas relaciona-se com aprender por caminhos tortuosos (Perséfone é raptada por Hades para viver nos subterrâneos, no mundo dos mortos e vai, aos poucos, perdendo sua fertilidade e brilho).



Maysa me faz pensar também no grande ego dos artistas. Possivelmente, os que mais se destacam são os que conseguem carregar o seu o mais inflado possível, pois ante tantos obstáculos, como a competitividade e o transcorrer implacável do tempo, é esse ego desproporcional que os sustenta.
Ego excêntrico - ele acaba te levando para a luz dos holofotes - seja por motivos louváveis ou por lamentáveis acontecimentos.

Sunday, January 4, 2009

Passagem do tempo


“A voz muda com o passar do tempo e eu peço sempre a Deus saúde, o resto é resto. Eu sei que eu não tenho mais a mesma voz de 20 anos atrás, mas hoje eu sei usá-la melhor do que há 20 anos atrás".

Simone Bittencourt de Oliveira - 2005


Simone nasceu em 1949, portanto acabou de completar, no último Natal, 59 primaveras.